Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Projeto Eu Vivo Aqui
Rio Negrinho

Brasileiros e europeus construíram a cidade

     As terras nas quais se localiza hoje a cidade de Rio Negrinho eram habitadas pelos índios Xokleng, do tronco lingüístico Jê ou Tapuia, também conhecidos pela denominação de Bugres. Na primeira metade do Século XIX entre Curitiba e Rio Grande do Sul houve um aumento de Colonização européia levando os índios Xokleng a se fixarem próximos aos limites de Santa Catarina e Paraná. Na disputa por terras entre os indígenas e os europeus emigrados a área agrícola aumentava para estes e diminuía para os bugres que foram ficando confinados e sem alimentos. Mesmo assim, “os indígenas pouco interferiram na Colonização de Rio Negrinho, quando comparado a outras áreas colonizadas”. (KORMANN, 1980).

     Em 1865, o engenheiro Wunderwald, numa de suas incursões à região já encontrou famílias com títulos de posse registrados na Província do Paraná. Os índios Xokleng não eram considerados habitantes. Os terrenos a Oeste da divisa da Colônia São Bento, da Companhia Hanseática pertenciam à importante família Franco, de Curitiba, que contratou capatazes para defender seus domínios. Em 1872, o Governo da Província do Paraná cedeu posse de terras na área para a família Cardoso.

     Em 1873, tomaram posse de terras as famílias Franco, Gravi e Oliveira Carvalho oriundas de São José dos Pinhais, do Estado do Paraná. Mathias Simões  de Oliveira é contratado pelo Brigadeiro Manuel de Oliveira Franco, para cuidar de suas terras.  Antonio Ferreira de Lima, em 1874, transportou a segunda leva de colonos alemães para São Bento e em 1875 instalou-se em Rio Negrinho. Desempenhou as funções de Agrimensor, topógrafo ou engenheiro medidor de terras, como era dito na época. Era proprietário de animais para tropa de cargueiros,   tornou-se caçador de bugres e em 1883 foi morto pelos índios botocudos na região de Corupá.

Estrada trouxe imigrantes

     A outra parte das terras integrava o dote nupcial do Príncipe de Joinville, François de Orleáns, filho de Luiz Felipe, rei da França, e da Princesa Francisca Carolina, filha de D. Pedro I, irmã do Imperador do Brasil D. Pedro II. Nestas terras surgiu a Colônia Dona Francisca e depois as cidades de Joinville, Campo Alegre, São Bento e Rio Negrinho. Não é definida com exatidão a chegada dos primeiros moradores europeus nas terras do atual município de Rio Negrinho.

     Em março de 1858 o governo Imperial subvencia a construção da Serrastrasse (Estrada da Serra) a Estrada D. Francisca empregando na sua construção os colonos recém chegados da Europa. No dia 17 de julho de 1873, um grupo de 12 pessoas subiu a serra a pé para demarcar os primeiros lotes no vale do Rio São Bento. Em 20 de setembro de 1873, setenta imigrantes escolhidos pela direção da Colônia e dois tropeiros brasileiros iniciaram a subida da Serra rumo à futura “Colônia Agrícola São Bento” chegando ao local no dia 22 de setembro para receberem os 64 lotes já demarcados.

     Os imigrantes destinados à Nova Colônia procediam das regiões da Prússia, da Polônia, da Saxônia, de vilarejos do Erzgeburge e Vogtland das proximidades de Chemnitz, Leipig e Dresden, da Boêmia do Norte, do Boechmerwald, em como da Baviera, regiões da República Tcheca e norte da Áustria.

     A construção pelo governo Imperial da Estrada de rodagem Dona Francisca, trecho São Bento-Rio Negro levou, em 1880,  várias famílias alemãs da Colônia São Bento a se transferiram para Rio Negrinho. Com a fundação de São Bento, a expansão de suas estradas, a continuidade da construção da Estrada Dona Francisca e da ponte sobre o rio Santa Maria, hoje Rio Negrinho, a Firma Engenheiro Riques, responsável pela construção, instalou-se junto à obra.

     Diversas famílias, se deslocaram  de Lençol e do interior da região, instalando-se ao lado do traçado da estrada e passaram a prestar serviços aos construtores da obra. Luiz Scholtz abriu uma casa de comércio. Carlos Hantschel instalou uma sapataria e José Brey uma hospedaria.

     A partir de então, alguns colonos, vindos da região de São Bento, foram se instalando em terras adquiridas de Bernardo Olsen, dos herdeiros da família Franco e outros. Após 1880 a vinda de imigrantes com alguma experiência técnica cresce sensivelmente fortalecendo assim, o desenvolvimento de atividades comerciais e implantação de pequenas indústrias variadas e modestas.

Ferrovia e móveis

     Com a construção da Estrada de Ferro São Paulo - Rio Grande, ramal São Francisco-Porto União, em 1910, a localidade tomou grande impulso. Novas famílias juntaram-se às já existentes. Entre elas estavam as dos comerciantes José Grossi e Victor Soares. 

     O Capitão Alfredo Pinto de Oliveira, Paulo Wehmudth também instalaram lojas de serviços. A mulher empreendedora se fazia presente por meio da  senhora Jacob Decher que instalou um hotel.  Otto Baumer inicia sua funilaria e Henrique Kwitschal é o novo açougueiro. Henrique Hatschbach abre mais uma sapataria na cidade.

     Bernardo Olsen transferiu o seu comércio de Lençol para a nova localidade e passou a trocar mercadorias coloniais por artigos de primeira necessidade. Estava formado um núcleo populacional entre Ponte do Rio Negrinho e o KM 103, o que foi, na realidade, o início da futura cidade.

     A Estrada de Ferro era uma boa opção para o escoamento da produção e inicia-se a exportação e comercialização de erva-mate e madeira em toras. Pela estrada de ferro também eram transportados os produtos para a continuidade da mesma e a combustão do trem: lenha, nó de pinho, dormente e o embarque de madeiras serradas, toras e erva mate. Após a inauguração da Estrada de Ferro, em 1913, foi inaugurada a indústria moveleira em Rio Negrinho.

     Em 1914, Jorge Zípperer e Willy Jung fundam a  empresa Jung & Cia, precursora da Móveis Cimo S/A que projetou Rio Negrinho internacionalmente como a “Capital dos Móveis”. A  maior indústria de Móveis da América Latina encerrou suas atividades na década de 1980. À época de sua instalação, a empresa contribuiu para a formação de mais um núcleo populacional e foi assim que fixaram residência em Rio Negrinho, acompanhados das respectivas famílias, o açougueiro Willi Beckert; o padeiro Gustavo Schulz;  o barbeiro Pedro Simões; o alfaiate Bernardo Wolff;  Max Jantsch o sapateiro; Ignácio Kohlbeck o ferreiro e muitos operários, sendo o primeiro serrador Emílio Witt.

     Rio Negrinho começou, então, a se desenvolver. A nova indústria impulsionou o desenvolvimento, e o núcleo populacional  foi elevado à categoria de Distrito de São Bento, no dia 13 de dezembro de 1925, pela Lei Municipal número 155. O projeto de emancipação apresentado pelo empresário e político Jorge Zípperer, membro do Conselho Municipal de São Bento No entanto, somente em fevereiro de 1927, foi nomeado o primeiro intendente, Pedro Simões de Oliveira.

Educação, esporte e cultura

     Em abril de 1920, no dia 4 de maio, sob a coordenação dos professores Roberto Hoffmann e Adelaide Ferreira da Costa eram iniciadas as atividades da primeira escola de Rio Negrinho, com matrícula inicial de 25 alunos. Em 1923 o edifício da escola foi deslocado dezesseis metros no mesmo terreno, sem ser desmontado, para dar lugar à construção da igreja católica, inaugurada em 1925, mas concluída somente em novembro de 1926. A capela protestante foi inaugurada no dia 11 de julho de 1928.

     A escola, a capela protestante e parte da igreja católica foram destruídas pelo tufão que assolou a cidade  no dia 22 de maio de 1932 e deixou atrás de si dezenas de mortos e muita destruição. A maior tragédia vivida pelos moradores até então. Destruída a primeira escola, o governo estadual ordenou a construção da Escola Professora Martha Tavares, que iniciou as atividades no dia 17 de setembro de 1933.      

     Em 1921,  Rio Negrinho viu nascer o Foot-ball Clube Rio Negrinho que incentivou a prática não só do futebol, como também da ginástica e outras modalidades. O campo do clube,  inaugurado em 1924 em terras das empresas Zipperer  localizava-se entre o rio Negrinho e a barra do rio da Serra. No salão Lampe, também de propriedade do Clube concentraram-se muitas apresentações teatrais. No mesmo local funcionava uma biblioteca com mais de 800 volumes em Português e Alemão.

     A Banda de música “Schuetzenkapele”, fundada em abril de 1903, por Martim Zipperer, e regida por João Treml, em maio de 1932, talvez tenha sido a primeira organização musical de Rio Negrinho. Em 28 de junho de 1928 foi fundada a Sociedade Cantora, sob a  coordenação de Otto Wirth. Entre os 105 sócios formou uma orquestra, que se apresentava em festividades com grande pompa.

Emancipação

     A elevação à categoria de Distrito legou a Rio Negrinho alguma independência administrativa, mas a autonomia política e o desmembramento territorial se consolidou somente em 30 de dezembro de 1953, por intermédio da Lei Estadual nº133.  A instalação do novo  município foi no dia 27 de fevereiro de 1954. Uma solenidade especial, com a presença do prefeito de São Bento do Sul, Alfredo Diener e o então Intendente Distrital José Bail passaram administração da cidade para seu primeiro prefeito Henrique Liebl. No dia 15 de novembro de 1.954 assume o primeiro prefeito eleito Frederico Lampe. Somente no dia 30 de novembro de 1979 é criada a Comarca de Rio Negrinho. A Lei Estadual nº 11340, de 8 de janeiro de 2000 oficializou a anexação de Águas Claras, até então pertencente ao município de Mafra.

Dia do Município

     Ninguém sabe ao certo as razões que levaram a escolha da data de 24 de abril para as festividades do Dia do Município. A hipótese admitida como oficial é a de que, por não ter um fundador único e nem uma data exata da chegada dos primeiros moradores, após discussões já no início do século passado, optou-se por determinar que o Dia do Município seria 24 de abril, data de aniversário de Jorge Zipperer , uma homenagem a um dos principais líderes e impulsionadores dos passos iniciais da cidade e fundador da Móveis Cimo e a data de 1880, ano de inauguração da Estrada Dona Francisca no trecho que deu origem à cidade.

     A cidade experimentou um crescimento recorde nos últimos anos e a faculdade local já conta com  420 estudantes distribuídos nos cursos de Bacharelado em Pedagogia e Informática – Pós Graduação em Pedagogia de Educação Infantil e Séries Iniciais, Curso de Música, Administração de Empresas, Designer em Móveis, Artes Visuais.

     A economia iniciou baseada na indústria moveleira que ainda hoje é uma grande força econômica da região e é exportada para todo o mundo. Com a modernidade, novos rumos foram sendo seguidos, a indústria cerâmica, representada pelos famosos canecos que decoram casas no mundo inteiro, bem como as revolucionárias panelas de cerâmica refratária, representam o que há de mais atual. A cidade abriga também as indústrias de papel e de máquinas.

 

 

 

 

Fontes:
Arquivo Histórico de Rio Negrinho
KORMANN, José. Rio Negrinho que eu conheci. Curitiba-PR. Tipo West Ltda, 1980.
OLIVEIRA, Nivaldo Simões de. Raízes da Comunidade- Rio Negrinho, SC. edição do autor, Rio Negrinho, 2001.
História de Santa Catarina, 1º Volume, Grafipar, 1970.

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