Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Projeto Eu Vivo Aqui
São Bento do Sul

São Bento do Sul: terra de conflitos e prosperidade

     As terras em que hoje está situada a cidade de São Bento do Sul foram comercializadas duplamente e por esta razão, causa de conflitos com a vizinha Província do Paraná.  Enquanto o brasileiro Francisco Antônio Maxiniano, desde de outubro de 1872, com facilidades, fazia os pagamentos ao governo do Paraná, a Sociedade Colonizadora Hamburguesa pagava ao Governo Imperial as terras vendidas aos colonos europeus.

     O grupo de pioneiros, 70 homens pais de famílias, com mantimentos para três semanas, guiados pelos tropeiros brasileiros João Fragozo e José Manoel da Cruz, saíram de Joinville, enviados em duas turmas, em 20 e 21 de setembro serra acima, encontraram depois de dois dias de caminhada, no dia 23 de setembro, o engenheiro Heeren e sua turma de trabalhadores, a serviço do governo do Paraná.

     Os primeiros colonos receberam os 64 lotes já demarcados, vieram principalmente da Aústria, Bavária, Boêmia, Prússia, Polônia, Saxônia, Pomerânea. Boa parte veio da localidade da Floresta da Boêmia, ou do Böhmerwald, localizado na Checoslováquia embora todos se considerassem cidadãos austríacos.

Dificuldades e melhorias

     As diferenças culturais entre os colonos assentados em São Bento, a maioria de confissão católica; e os assentados em Joinville, em sua maioria de Luteranos, aumentavam na mesma proporção que as desavenças entre a direção da empresa colonizadora e os habitantes da Colônia São Bento, que se sentiam abandonados e reivindicavam sementes, mantimentos, assistência médica, religiosa e escolas para seus filhos.

     Além da diversidade cultural, a direção da Colônia tinha sérios problemas com a falta de lotes para distribuir aos imigrantes que continuavam a chegar da Europa. O Governo Imperial brasileiro não concedia a posse definitiva das terras destinadas à colonização e as obras da Estrada Dona Francisca -”Franciscastrasse” avançavam em ritmo muito lento.

     Estas dificuldades tornaram ainda mais penoso o início da nova vida para os imigrantes. Até dezembro de 1878, o povoado conviveu com os conflitos de limites territoriais entre Santa Catarina e o Paraná, quando chegou às mãos do diretor da Colônia, Frederic Bruestlein, o título de propriedade das terras. No mesmo ano, era instalado o Distrito da Paz de São Bento.

Médicos e hospital

     O primeiro médico de São Bento, Phillip Maria Wolff foi contratado em 1874 para morar, montar farmácia e consultório por conta da direção da colônia. Entretanto, o dono da célebre Vila Wolff, conseguiu ludibriar a Direção e, até 1876, fazia apenas visitas mensais ao povoado.

     Logo após ter se instalado na Colônia, apesar de receber salário da Direção, passou a cobrar as consultas, sob a alegação de que os colonos abusavam da gratuidade dos serviços fingindo doenças.

     Segundo o historiador e professor José Kormann, na parte superior do atual museu municipal, funcionava também o primeiro hospital. 

     O segundo médico de São Bento do Sul foi Ernst Moritz Arndt que construiu um hospital no exato local onde funciona hoje a Sociedade Desportiva Bandeirantes que, para a época, primava pela grandeza e pela magnificência. Nesse hospital havia moderna aparelhagem e lá realizava-se as mais delicadas intervenções cirúrgicas.

     O fundador do atual Hospital Sagrada Família foi o terceiro médico da cidade, o curitibano, Pedro Raymundo Cominese, por 31 anos, foi o único médico de São Bento do Sul. O hospital nasceu da Clínica Dr. Cominese, inaugurada em 1942 e que funcionou como tal até meados de1954.

     No dia 29 de outubro de 1950 formou-se uma associação de caridade sob o nome Sagrada Família para a qual se transferiram os bens da Clínica Dr. Cominese e assim se deu origem ao Hospital Sagrada Família.

Assistência religiosa

     O Padre Carlos Begershausen, de Joinville, contratado pela Direção da Colônia, também em 1874, visitou São Bento pela primeira vez, em 1876. As visitas se repetiam a cada três meses. Em 1879, com uma população de 2575 habitantes de procedência européia e 1700 nacionais.

     Naquele ano, São Bento recebia o seu primeiro padre residente, Adalberto de Leliva Bukowski, natural da Polônia, contrato pelo Governo Imperial. A presença do Padre influenciou beneficamente os colonos e no ano seguinte já era construída a primeira igreja, com recursos próprios.

Educação e cultura

     O primeiro professor da cidade foi o também sapateiro Frederico Fendrich. As aulas, ministradas inicialmente a 30 crianças, no ano de 1875, no período matutino. A escola fora construída na esquina da avenida Argolo e da rua Wolfgang Ammom, pelos moradores, com tábuas da floresta de araucária, transportadas nas costas, desde o bairro Oxford, onde haviam sido usadas no rancho de Teodor Ochcz, emissário do governo do Paraná, na época da chegada dos primeiros colonos.

     Somente em 1879, foi nomeado o professor vitalício Joseph Kuonz para a escola de rapazes e sua mulher, a professora, Maria Luiza Kuonz para atender a escola das meninas. O casal chegou a Joinville no dia 11 de dezembro e seguiu viagem serra acima. Iniciariam o ano letivo no dia 7 de janeiro de 1880.

     Assegurada a presença do sacerdote e professores, o aparente acordo de limites com o Paraná e a conclusão da Estrada Dona Francisca possibilitando o transporte de cargas até Joinville,  a Colônia São Bento alcançou a estabilidade espiritual e começou a prosperar. Diminuíram os crimes entre os habitantes e uma relativa paz  reinou sobre a colônia.

     Bons tempos em que era possível restabelecer os laços culturais com os amigos e familiares implantando na nova pátria os hábitos e costumes da terra natal. Assim, em 11 de outubro de 1881, era fundada  a Sociedade da Cantores 25 de julho e no dia 15 de outubro do mesmo ano foi oficializada a fundação da Sociedade  Literária.  Ambas em atividades ainda hoje.

Desenvolvimento

     No dia 24 de junho de 1877, chegava a Joinville a primeira carroça carregada de erva-mate vinda de São Bento. Estava dado o passo inicial para o desenvolvimento econômico da cidade. O trajeto de 80 kms foi percorrido em um dia e meio de viagem, mas o comércio, entre o planalto e o litoral, foi aberto e o caminho carroçável marcava o início de uma nova era de progresso para a região.

 

                                                          A madeira como vocação

     A indústria da extração e o preparo da erva-mata era a principal fonte de renda de todo o planalto nos primeiros tempos. Mas o preço do transporte influenciava largamente neste tipo de comércio. Além da erva-mate, como base da economia regional, a madeira serrada começou a ser  uma fonte de riqueza para São Bento. O planalto começou a fornecer tábuas e pranchas  para a construção de casas em Joinville e madeira para obras de marcenaria e caixotaria.

     São Bento do Sul descobriu na transformação da madeira sua vocação. No início a madeira da floresta moldou ranchos, cercas e vendas. Antes das indústrias vieram as serrarias, carpintarias, barricarias, tamancarias e marcenarias. Rodas d’água e tração animal que moviam serras furadeiras e tupias.

     Da imbuía, do pinheiro e da canela eram produzidos móveis, cabos de ferramentas, equipamentos para agricultura e carroças. Os colonos e pequenos agricultores tomaram a iniciativa de montar pequenas fábricas artesanais.

     O comércio entre o planalto e o litoral também cresceu gradativamente. A colheita de produtos agrícolas não era na mesma época na serra e no litoral, então era possível vender os produtos agrícolas para Joinville nos períodos em que o clima não favorecia na cidade e vice-versa.

     A Lei Imperial No. 1030, de 21 de maio de 1883,criou o Município de São Bento, desmembrado de Joinville. Já a agência de Correio e a Cadeira Pública passara a funcionar somente em 1894.

     A pequena colônia cresceu, prosperou e hoje a Capital Nacional dos Móveis, além de  se destacar nos setores cerâmico, plástico, metalúrgico, de fiação e tecelagem.

 

 

Bibliografia:
SCHNEIDER, Adolfo Bernardo. Povoamento-Imigração Colonização. Edição do Autor, Joinville-SC, 1983.
História de Santa Catarina, 1º Volume, Grafipar, 1970.
FICKER, Carlos. São Bento do Sul – Subsídios para a sua história, Edição do autor, Joinville-SC, 1973.
Contribuições do Professor José Kormann

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