Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Projeto Eu Vivo Aqui
Timbó

Timbó – Uma contribuição para a história regional

     Seria impróprio escrever a historia de Timbó, sem incluir os demais municípios da região.  O núcleo Benedito-Timbó englobava também boa parte das terras em que hoje estão instalados os municípios de Rio dos Cedros, Benedito Novo, Doutor Pedrinho e Rodeio, todos colonizados na mesma época como extensão da Colônia Blumenau. 

     Em 1860 imigrantes oriundos de Porto Belo, Camboriú, Itajaí e Armação, todos de origem açoriana estabeleceram-se na barra do Rio Benedito, em Carijós (Indaial). A expedição da empresa colonizadora coordenada por Hermann Blumenau fez sua primeira incursão pelo rio Benedito a partir do dia primeiro de julho de 1863.

     Os primeiros colonos alemães a se fixarem na confluência entre o rio Benedito e o rio dos Cedros, vindos da Pomerânia, antiga província do norte da Alemanha, acompanhando os movimentos colonizadores promovidos por Hermann Blumenau, já encontraram moradores brasileiros e descendentes de portugueses.

     Orientados pelo diretor da Colônia, pelo caboclo Ângelo Dias e pelo Engenheiro Emílio Odebrech, colonos alemães, liberados por Frederico Donner, subiram o Rio Benedito até a foz do Rio Cedros e iniciaram um núcleo habitacional.

Primeiros lotes 

     A história iniciada por Frederico Donner, o primeiro imigrante a construir habitação, não é somente de Timbó e a data da chegada de Donner de Indaial, onde residia desde 1867, é provavelmente 12 de outubro de 1869. Carl Friedrich Wilhelm Butzle em autobiografia ditada, em 1940, contando 97 anos de idade na época, garantiu ter chegado a Timbó, de canoa, no ano de 1869.

     Entretanto, os registros das primeiras vendas de lotes às margens dos rios Benedito, dos Cedros e Mulde foram cadastrados pelo engenheiro Emílio Odebrecht, em 1872. Na listagem publicada no livro do Centenário de Timbó não inclui o nome de Carl, que teria comprado, em 1969, o lote de número 20. Frederico Donner consta como proprietário de terras às margens do Rio dos Cedros. A mesma listagem registra que parte das terras da margem direita estavam reservadas para fins públicos. Seria o local destinada à passagem do rio e mais tarde, à construção da ponte Dona Clara.

     Ao chegarem, os imigrantes alemães encontraram o colono Benedito, filho mais novo do casal Benedito residentes em Indaial, morando junto à foz do rio Benedito.

     Não se tem registro da data exata de chegada de Benedito (novo), mas em fevereiro de 1863, o colono teria abastecido de cachaça, o cantil do canoeiro Ângelo Dias, que acompanhava o agrimensor Augusto Wundervald em suas excursões ao rio Benedito e dos Cedros, com o objetivo de traçar uma estrada entre a Colônia Blumenau e a Colônia Dona Francisca (Joinville).

     Os relatórios de Wundervald já denominavam a região como Benedito-Timbó. As canoas eram o único meio de transporte da época. A anta era o principal alimento dos aventureiros e o palmito, além de alimento, era usado como madeira na construção das primeiras habitações (casas e ranchos). As primeiras casas, de pau-a-pique com a madeira do palmito, foram financiadas pelo Governo Imperial do Brasil e construídas Augusto Germer.

Ataques de índios

     Os primeiros habitantes conviveram com o temor dos ataques dos índios botocudos. Acuados pelos batedores do mato (ou bugreiros) contratados pela empresa colonizadora para “proteger”os colonos, os índios atacava aqueles que consideravam invasores de suas terras e ladrões de seu alimento.

     Entre os resultados desastrosos da disputa entre índios x bugreiros x colonos, a morte de duas filhas (de 5 e 16 anos) do tiroles, Adão Paternolli, morador de Rio dos Cedros, em 14 de outubro de 1875, provocou a ira dos moradores e dos administradores locais.

Italianos

     Em 1900 chegavam os primeiros imigrantes italianos, vindos do Tirol (Itália) e outros deslocaram-se de Rodeio e Ascurra (onde haviam chegado em 1875).

     Do mesmo modo como aconteceu em praticamente todos os núcleos populacionais, os imigrantes preferiam comprar lotes próximos aos familiares e amigos, ou com outros imigrantes com quem tivessem alguma afinidade. A saudade da terra natal, os hábitos, a cultura, a religião os impelia a permanecer juntos.

     Assim, foram-se formando os grupamentos de imigrantes com características comuns: Alemães, evangélicos, italianos (tiroleses), católicos, ítalo-austríacos, cada grupo formava uma comunidade e todas juntas, o núcleo habitacional Benedito-Timbó.

A caminho do progresso

     A travessia dos diversos rios que cortam a região era uma das grandes dificuldades para a chegada de mantimentos, pessoas e equipamentos. Muitos perderam a vida ou ficaram com seqüelas a tentar transpor a pé ou a cavalo os rios, especialmente o dos Cedros.  Portanto, a construção de pontes era o único meio de transformar as picadas em estradas carroçáveis e para possibilitar a travesia com segurança de  pessoas, mantimentos e do progresso.

     A primeira ponte sobre o Rio Benedito foi inaugurada no dia 27 de agosto de 1893. Já a ponte sobre o Rio dos Cedros, causa de muitos desentendimentos entre a Direção da Colônia, os políticos e moradores do núcleo habitacional, foi inaugurada pelo governador Gustavo Richard, durante a primeira visita de uma alta autoridade a Timbó, em maio de 1907. O próprio governador denominou a ponte Dona Clara, uma reverência à participação da segunda mulher de Frederico Donner, na política.

     As habilidades de Clara na política trouxeram outras conquistas para a comunidade. Além da construção da ponte, a imigrante alemã Clara Freygang (Donner) atuou na construção de escolas, da igreja evangélica e fazia atendimento à saúde, consta que teria curado mais de 300 pessoas mordidas de cobras e com outras enfermidades.

     A Pharmácia Bremer, a primeira de Timbó, foi fundada somente em julho de 1912. Não havia médicos. A Fundação Hospitalar de Caridade de Timbó foi fundada somente no dia 5 de setembro de 1927, dez anos após o falecimento de Clara.

     Seu marido Frederico abriu a primeira casa comercial do núcleo colonial, instalou a primeira atafona e exportava, já por volta de 1900, para o Rio: banha, manteiga, frutas e em troca importava rendas, trigo e tecidos. Além de grande comerciante e participante ativo da vida comunitária,o fundador de Timbó construiu uma balsa sobre os dois rios e, mais tarde, com o auxílio do governo federal, um pontilhão para o trânsito de carroças, trabalhou para a ativação do canto coral, de salão de bailes e de corridas de cavalos. Donner era uma espécie de representante local da direção da Colônia.

Transporte e comunicação

     O transporte de passageiros e cargas, por carroças e carroções até a estação ferroviária de Indaial teve início em 1913. Nos documentos pesquisados pelo professor Gelindo Buzzi, constava somente o sobrenome Reiter, como sendo o proprietário do carroção. Em 1915, Reiter vendeu o veículo para Gustav Milchert que em 1922 adquiriu um caminhão que transformado em ônibus, seria o primeiro transporte público fixo da cidade.

     Mas a partir de1928, os passageiros eram levados até Blumenau. E em 1º de julho de 1944, a Empresa Transportadora Timboense iniciava o transporte regular de passageiros entre os núcleos habitacionais da região.

     Os tiroleses (italianos) trouxeram o conhecimento, a cultura do milho e da uva. O milho, depois de moído nas atafonas de Timbó, transformava-se em polenta e a uva,  num bom vinho (especialmente em Rio dos Cedros e Rodeio). Em 19l7, João Longo iniciou, em Rio dos Cedros, a plantação de arroz, no sistema irrigado. Era o início da consagração da região como grande produtora desta cultura.

     As cartas para os parentes e amigos seguiam via empresa colonizadora até 1922, quando foi instalada, no dia 15 de junho, a Agência de Correios e Telégrafos. O primeiro telefone foi instalado somente em 1951.

Vida social e cultural

     Assim como na maioria dos demais núcleos habitacionais de imigrantes luteranos, os primeiros moradores, preocuparam-se com a educação de suas crianças e, em março de 1873, foi inaugurada a primeira escola de Timbó. O primeiro professor, Julius Scheidemantel, fazia também os sepultamentos na região. A primeira escola,  também servia de igreja inaugurada no dia 28 de setembro de 1890.

     Já a comunidade católica estabeleceu-se nas regiões que formam hoje as cidades de Rio dos Cedros e Rodeio. Em Timbó, a primeira missa foi celebrada pelo Frei Bruno Linden em frente a casa do professor José Luecken, no dia10 de novembro de 1935. O crescimento da comunidade católica foi rápido. Em três de outubro de 1937, uma reunião definia as ações que resultaram na construção, em dois anos, de boa parte da igreja.

     Em 1958, a comunidade adquiriu mais terras e construíu uma casa para servir de residência às irmãs catequistas e em casa paroquial. No dia 26 de fevereiro, sob a coordenação das Irmãs, o Jardim de Infância Santa Teresinha recebia as primeiras crianças. Em setembro de 1965 a velha igreja foi demolida e em dezembro de 1967, era celebrada a primeira missa na nova casa.

     A Escola Isolada Estadual de Cerro Margem Esquerda, primeira escola pública, iniciou suas atividades em 1880, com 39 alunos. As aulas eram ministradas em idioma alemão. A EERR “Professor Nestor Margarida” foi construída na comunidade de Araponguinhas em 1886. Paulo Henrique foi o primeiro professor.

     Na região de Tiroleses, em 1890, surgiu um núcleo educacional voltado ao ensino das letras, números e religião. Bárbera Zanluca, em sua própria residência foi a primeira professora. Mais tarde o professor Carlos Travaglia assumiu as aulas que eram ministradas na igreja. Somente em 1932 foi construído o prédio da EIE de Tiroleses. Em 1901 iniciava as atividades da EIE de Ribeirão Dona Clara.

     O Grupo Escolar ‘Polidoro Santiago’ foi inaugurado no dia 7 de setembro de 1935, com uma matrícula de 180 alunos. O atual prédio abriga a escola desde 19 de abril de 1944. No final da década de l960, funcionavam anexo ao Grupo, os Cursos Complementares (formação de professores) Normal Regional e Ginásio Normal “Professor Alvim Laemmel”. 

Sociedades

     Nos primeiros tempos as decisões e reuniões comunitárias tanto sociais, quanto recreativas, eram nas casas dos moradores.  Mas em 24 de abril de 1879 era fundada a primeira sociedade local de cunho músico-recreativo. A Sociedade do Côro Orfeônico Masculino Teotônia - Gesang Verein Teutônia Rio Benedito” teve como primeiro dirigente o professor Julius Scheidemantel.

     Os primeiros conjuntos musicais começaram a surgir em 1900. Inicialmente denominados Capela (só vozes). Haviam diversos capelas: Milchert, Mahlstett, Wollinger, Ritzle e Radloff.

     As sociedades esportivas começaram a ser formadas a partir de 1905. Em 1916 era formada a primeira sociedade de atiradores. Com o limiar da Primeira Guerra Mundial, as sociedades de origem ítalo-germânicas tiveram que reduzir as atividades. Algumas fecharam as portas para reabri-las após a guerra, muitas vezes com outro nome. 

A Pérola do Vale

     A alcunha atribuída ao município por ocasião de seu centenário de fundação em 1969 retrata o espírito ordeiro e empreendedor e a cultura do timboense. A agricultura foi a mola propulsora do município. Até por questão de sobrevivência os primeiros imigrantes entregaram-se ao cultivo da terra. No entanto, 134 anos mais tarde, a cidade está mais voltada à indústria.

     A piscicultura, a pecuária, o comércio, a indústria e mais recentemente o turismo são atividades que garantiram a Timbó um crescimento constante e ordenado. O Município abriga hoje mais de 500 indústrias, é o 20º maior arrecadador de impostos do Estado. A indústria gera 82% da renda do município, o comércio 10% e a agricultura contribui com 8%. 

     As belezas naturais, os belos jardins e construções  no início do século passado formam um conjunto harmonioso e belo aos turistas que se deslocam até a cidade para participar dos inúmeros eventos culturais, esportivos, agrícolas, dos bailes, dos campeonatos de tiro ou para saltar em vôo livre do Morro Arapongas ou do Morro Azul.

     O trabalho, a cultura a dedicação dos primeiros habitantes, de seus descendentes, dos filhos de Timbó e dos migrantes que fixaram residência legaram à geração atual uma qualidade de vida exemplar. Timbó é considerada pela ONU a 10ª melhor cidade do Brasil para se viver, a 3ª em qualidade de vida e a 2ª cidade com menor índice de analfabetismo do Estado. As flores, a dança, a música, o culto às tradições germânicas e italianas fazem da cidade um pólo irradiador de cultura. 

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