Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Reportagens

Conflito de gerações nas escolas, como conviver proativamente? - parte II

Conflitos de pensamentos e características estão mais acentuados

 

“Toda transformação educacional que vemos hoje, no sentido de inovação, se dá pelo altruísmo de alguns poucos professores. A gestão da inovação na escola certamente aumenta significativamente o número de envolvidos com o processo e, consequentemente, os resultados alcançados”.

 

 

 

 

 


A frase do professor de física do Colégio Bom Jesus de Curitiba, Marlon Vinícius Soares, mestrando em ciência e engenharia de materiais pela UFPR, retrata o pensamento corrente na sociedade, amplamente alicerçado em pesquisas científicas e acadêmicas, especialmente quando se trata de trabalhos que envolvam o uso de tecnologias na sala de aula.   

A diferença de conceitos e características entre os indivíduos sempre pode gerar conflitos. E em sala de aula, essas diferenças ficam evidentes. Segundo o professor Marlon, os professores da geração X, em geral, estão mais preocupados em cultivar características de sua própria geração bem como seus modelos de ensino e aprendizado, do que prestar atenção e orientar os estudantes Y a usarem de maneira apropriada suas características a seu favor.

A característica super protetora dos professores, que preferem pensar “vamos fazer dessa forma porque está funcionando e se fizer diferente pode dar errado”, esbarra na geração do erro e acerto, que sem medo de errar diz “e se fizer diferente, o que acontece?”.

É nítido em todas as salas de aula que os jovens não aguentam mais ficar quarenta minutos prestando atenção em um mesmo assunto. Característica boa ou ruim, cabe também à escola auxiliar o estudante a desenvolver métodos e estratégias que auxiliem no uso desse atributo para obter um melhor desempenho escolar e social. E para que a escola consiga atender às expectativas dos alunos é preciso, antes de tudo, saber quais são essas expectativas. 

“Quantos professores perguntam aos seus alunos o que eles querem e, com base nas respostas, planejam suas aulas? Quantas escolas têm seus planejamentos baseados em pesquisas sobre o que os educandos esperam da escola? Nas escolas brasileiras, em geral, não dizemos aos alunos o que vamos oferecer e muito menos perguntamos o que eles querem da escola. Simplesmente as aulas são dadas para tentar cumprir o currículo”, declara Marlon.

E como o jovem da geração Y enxerga a escola então?

Não é como uma alternativa de diversão e aprendizagem. Já que é o lugar onde ele deve passar quatro horas sentado, calado na grande maioria do tempo. Sem falar, sem se comunicar, sem o celular. 

Pesquisa da Fundação Instituto de Administração (FIA/USP), realizada com 200 jovens de São Paulo, divulgada em 2010 mostra que 99% dos jovens nascidos entre 1980 e 1993 só se envolvem de verdade em atividades que despertam seu interesse.

O que não é novidade alguma. Já que independente da geração a qual pertencemos, todos fazemos tudo por duas únicas razões: ou porque queremos ou porque precisamos.

“Segundo Sidnei Oliveira, autor de livros sobre a geração Y, devemos investir na comunicação e na construção de bons relacionamentos entre as gerações para termos equilíbrio, nesses tempos modernos. Os professores têm que ouvir mais seus alunos, respeitar mais seus anseios. Os alunos precisam aprender a ter um pouco de paciência e respeitar os professores”, completa. 

 

O professor orienta, os alunos fazem

Exemplo 1

Certa vez resolvi fazer uma revisão pelo Twitter. Eu postei alguns tópicos essências para a avaliação, a seguir, os alunos postavam fotos dos exercícios do livro que não haviam conseguido fazer. Eu resolvia, tirava foto da resolução e postava. Tive que encerrar a revisão com 40 minutos pois as perguntas não paravam de chegar.

O que aconteceu a seguir foi interessante. Os alunos continuavam pedindo exercícios, mas, como eu não estava lá, outros alunos que haviam conseguido resolver os exercícios postavam a resposta. 

A revisão pelo Twitter, agora sem professor, continuou por mais de uma hora. Passada a avaliação, muitos alunos me procuraram agradecendo e atribuindo ao Twitter o sucesso na prova.

É curioso, pois, para garantir que os alunos que não tem acesso a internet não fossem prejudicados, a mesma revisão que fiz pela manhã, na sala de aula, fiz à noite pela rede social.

No entanto, nenhum aluno atribuiu o sucesso na avaliação à revisão em sala, mas sim àquela da internet. Isso mostra que, quando a escola vai até o mundo do aluno, conseguimos acessar o aluno que em sala se encontrava distante. 

 

Reflexão sobre conceitos e paradigmas

 

O perfil desejado de professor há tempos vem sendo alterado. É necessário refletir sobre os paradigmas incrustados na educação brasileira, de forma a revisar as ações pedagógicas, analisar os métodos e técnicas de ensino. 

A maturidade e sensibilidade do professor são fatores importantes para conhecer, apoiar e compreender o aluno, para gerar cidadãos reflexivos, comprometidos com a realidade.

O papel do professor de incitar seus alunos a aprender a aprender, ter autonomia para selecionar as informações pertinentes à sua ação, refletir sobre os problemas para conseguir escolher a melhor solução, é cada vez mais imprescindível diante da geração Y e das próximas gerações.

 “A escola de ontem dificilmente encontra lugar no mundo moderno de hoje. Há crises nos currículos, na maneira de fixar os temas, já que os saberes estão se multiplicando tão rapidamente. Há crise no professor que se vê diante de exigências para as quais não foram formados... 

Também há crise nos modelos de valores, de sociedade e de gestão”, acrescenta a professora e jornalista Cristiane Parente. CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO...

 

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