Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Reportagens

Conflito de gerações nas escolas, como conviver proativamente? - parte III

Existe uma formula mágica?

 

“Quando falo que uma das características da geração Y é a curiosidade e a busca pelo conhecimento, muitos professores dão risada, uma vez que ouvimos com frequência a afirmação de que cada ano está mais difícil dar aulas”, ressalta Marlon Vinícius Soares,  mestrando em ciência e engenharia de materiais pela UFPR.

O aluno geração Y, quando precisa de informação, vasculha a internet para encontrar, domina com facilidade jogos com outras línguas e aparelhos eletrônicos com os quais nunca teve contato. A questão central é como os professores podem utilizar o interesse e a curiosidade do adolescente para ensinar os conteúdos formais na sala de aula?

 


 

O professor Marlon revela que não existe uma resposta mágica. “Infelizmente as soluções são locais e se aplicam para cada realidade. Elas podem ser encontradas com muita discussão e estudo. Precisamos incentivar essa discussão nas escolas”, completa.

Os professores podem organizar grupos de estudo, debater as questões que afligem e que aparentemente não têm solução. O tema deve ser levado para a sala dos professores e salas de aula. Pois é através do planejamento e da discussão que as ideias novas aparecem. 

Inovação que não está apenas relacionada com a tecnologia, mas sim com a incorporação, combinação ou síntese do conhecimento em originais e relevantes produtos ou processos.

E as inovações não precisam ser em tamanho monumental. Pequenas mudanças também são válidas e frequentemente eficazes. “Podemos inovar nas relações humanas, nas práticas escolares, na forma de avaliar. A tecnologia é apenas uma ferramenta que pode auxiliar na mudança”, acrescenta Marlon.

Uma das barreiras que impedem o professor de tentar algo novo é o medo. “O professor faz uma aula diversificada, cheia de recursos e com uma avaliação fora dos padrões tradicionais. Se isso tudo funciona, quando muito, é parabenizado. Se dá errado, o professor é repreendido pela escola, pelos pais, pelos alunos. Desta forma, a escola incentiva o professor ao tradicionalismo” revela o professor. 

Nas instituições públicas, para que as escolas possuam esse espaço de discussão é preciso haver iniciativa dos órgãos públicos. “Quantas escolas possuem grupos de estudo entre os professores para debater essas questões e encontrar soluções? Mal remunerados, os professores se obrigam a ter uma carga horária elevada para conseguir um salário digno. Com isso, o planejamento e a discussão visando a busca de soluções não tem espaço”, argumenta Marlon.

 O professor orienta, os alunos fazem

Em uma ocasião, mudei o formato de minhas aulas para ensinar circuitos elétricos e resistores para alunos da 2a série do ensino médio. Os alunos foram reunidos em grupos, cada grupo era uma empresa e tinha um líder. Alguns alunos que se destacaram na compreensão dos conhecimentos prévios do assunto a ser ensinado foram separados e não estavam em nenhuma das empresas.
As empresas deviam contratar, cada uma, um dos alunos destaque. Esses, tinham como função ajudar a equipe a atingir suas metas, que eram a resolução e compreensão de exercícios. Os gestores poderiam demitir funcionários que, poderiam abrir novas empresas ou pedir emprego nas outras. Nunca vi tantos alunos fazendo exercícios de Física. 
Depoimento professor Marlon.
 
Uma sala de informática sozinha não irá ensinar de maneira diferente. Quem faz acontecer dentro da sala de aula é o professor. Seu planejamento e práticas pedagógicas inovadoras é que fazem a diferença.
 
 
Parece um dado sem importância, mas estudos americanos comprovam que quem convive com ferramentas virtuais desenvolve um sistema cognitivo diferente.
Uma pesquisa do Departamento de Educação dos Estados Unidos revelou que crianças que usam programas online para aprender ficam nove pontos acima da média geral e são mais motivadas.“É a era dos indivíduos multitarefas”, afirma Carlos Honorato, professor da FIA. 
Ao mesmo tempo em que estudam, são capazes de ler notícias na internet, checar a página do Facebook, escutar música e ainda prestar atenção na conversa ao lado. Para eles, a velocidade é outra. Os resultados precisam ser mais rápidos, e os desafios, constantes.
 
 
 
Sugestões de atividades interativas
 
Um exemplo de novas formas de pensar as aulas é através da educação à distância. As aulas através de vídeos, ao vivo ou gravadas, interação através de chats e fóruns na internet, fornecem ao aluno oportunidades de participarem de variadas formas de aprendizagem, variando o canal de ensino.
Nas aulas de geografia, os professores podem utilizar o programa do Google Earth para fazer um tour com os alunos nos principais lugares do mundo, ou do universo. Para trabalhar as coordenadas geográficas, solicitar que eles encontrem determinados pontos do globo terrestre.
Enquanto o professor explica determinado assunto, pode orientar os alunos a procurarem no banco de imagem de buscadores como o Google, imagens relacionadas com aquele tema, fatos ou curiosidades. 
É importante também não aceitar trabalhos cópias da internet, mas ensinar como os alunos devem realizar as suas pesquisas e orientar sobre aqueles sites com conteúdos editáveis e duvidosos.
São muitas as maneiras para alterar a rotina da sala de aula, que deixará de ser maçante inclusive para o professor. O que precisa existir urgente, para que a escola passe a ser moderna e dinâmica como seus estudantes é a quebra de paradigma. 
 
 
 Professores e alunos aprendendo juntos
 
É verdade que a maioria dos estudantes não sabe utilizar suas características pessoais como o dinamismo, a agilidade, a multifuncionalidade e nem a tecnologia em favor da aprendizagem. 
Um dos exemplos são as aulas de informática, momento que é, geralmente, de escape para tentar navegar na internet, olhar suas contas nas redes sociais, comentar algum blog. E depois de tudo isso, se sobrar tempo, executar as atividades que o professor planeja para aquela aula. 
A dificuldade se deve ao fato do aluno não ter aprendido a utilizar os recursos digitais para estudar.
O professor pode atuar como orientador desse aluno. Ensiná-lo a utilizar sua capacidade e inteligência a seu favor. “Para manter a atenção dos alunos, o professor precisa mudar de tempos em tempos e até mesmo numa mesma aula, que deve ter vários momentos diferenciados. 
O momento do projetor, da discussão, o expositivo por parte do professor e tem o momento em que o aluno tem que fazer alguma coisa, para que ele não fique passivo e participe ativamente da aula”, explica Marlon.
Então, para não cair na mesmice dos slides o professor precisa se atualizar. Conhecer as redes sociais, recursos de internet, programas que estão sendo utilizados pelos alunos. Saber utilizar o computador, seus recursos básicos e conhecer o mundo inteiro de opções que a internet lhe oferece.
“Não basta ter acesso às tecnologias digitais on line é preciso saber operá-las não mais como um receptor da mídia clássica. A internet é uma mídia interativa; dela somos espectadores e partícipes ao mesmo tempo. A participação é a novidade principal”, explica o sociólogo e doutor em psicologia pela PUC, Marco Silva.
O  professor Marlon, enfatiza ainda que a geração a que pertencemos “é mais uma questão de postura e do modo como exercemos nossas práticas, do que a data em que nascemos. Os grandes mestres com quem aprendi a maior parte de minha filosofia de trabalho, eram de gerações anteriores a geração Y. Tive um professor de cálculo diferencial, Adonai Sant’anna,  que tem uma visão da educação que será moderna até para as gerações que ainda não temos letras para definir”. 

 

Referências:

Rangel, Mary; Freire, Wendel (org). Ensino-aprendizagem e comunicação. Rio de Janeiro. Wak Ed. 2010

Silva, Marco. Sala de aula interativa: educação, comunicação, mídia clássica... São Paulo. Edições Loyola. 2010

Santos. Maria Lúcia Ramos. Do giz à era digital. São Paulo. Zouk. 2003

Acúrcio, Marian R. Borges (coord). Questões urgentes na educação. Belo Horizonte. Artmed/rede Pitágoras. 2002

Revista Planeta. Julho/2011. Edição 466. Ano 39  

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