Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Reportagens

Drogas - Escola e família devem ser o porto seguro

Neste mês, o Jornal da Educação dá continuidade à reportagem iniciada na edição anterior sobre a questão das drogas. Em abril, publicamos a primeira reportagem da série informando aos leitores sobre os tipos de drogas e apresentando algumas alternativas para que a escola e a sociedade  consigam detectar os problemas logo nos primeiros sinais e implementem  ações e atitudes que resultem na recuperação do dependente. 

Família e escola devem enfrentar o problema abertamente 
 
O papel da família é o de ser o ponto de apoio. Fingir que o problema não existe, não ajudará. Pelo contrário, a afastará da realidade, retardando e dificultando o tratamento. 
Cabe a família cuidar e estabelecer limites e sinalizar quando o viciado tiver comportamentos de recaída ou quando deixar de cumprir o que lhe é estabelecido.
Família, amigos e corpo escolar não devem sentir vergonha, fazer julgamento precipitado ou pressão psicológica atribuindo às drogas e ao dependente, a culpa por todos os “seus males”.
Familiares e amigos não podem assumir as responsabilidades do dependente, a quem cabe assumir e lidar com as conseqüências por suas escolhas e atos. 
Nesse sentido, familiares devem ser solidários e disponíveis a apoiá-lo na busca por tratamento especializado e durante a recuperação.
No livro Drogas – perguntas e respostas, o médico Ivan Mario Braun defende que usar drogas não é fraqueza ou rebeldia. 
A dependência de drogas não é uma opção. E acrescenta ainda ser provável que as drogas criem um tipo de memória no cérebro tornando difícil resistir ao seu uso. 
Para quem nunca usou, é difícil entender que não é apenas uma questão de “não cheirar”, “não fumar” ou “não comprar”. 
Os dependentes sentem uma fissura muito grande, uma compulsão e desejo incontrolável que ultrapassa as barreiras da razão.
 
Grupos de apoio
A família do dependente é, muitas vezes, afetada pelo problema, ou até promove recaídas do usuário sem perceber.
Portanto, também deve procurar orientação, freqüentar grupos de apoio, para aprender a lidar com a situação e trabalhar os sentimentos de culpa ou impotência. 
“Existem serviços que acolhem os pais, familiares e até mesmo amigos que tenham sido afetados e os orientam a agir em diversas situações. 
Em Joinville, há diversos grupos: Amor-Exigente, Nar-Anon, Al-Lanon, a Pastoral Antialcoólica e o CAPS-ad (Centro de Atenção Psicossocial).
Em nível nacional, o Viva Voz  ou um serviço de orientações e informações sobre a prevenção do uso indevido de drogas atende pelo telefone 0800 5100015. 
Quanto mais rápida for à intervenção, maiores serão as chances de sucesso do tratamento”, relata a especialista em dependência química, Roseli A. C. Nabozny, coordenadora da Comunidade Terapêutica Essência e Vida. 
 
Escola deve ter política de prevenção 
 
A escola deve evitar ignorar ou não dar importância aos fatos, evitar expulsar o adolescente, poupar julgá-lo como único culpado e evitar pressão e perseguição durante o período escolar. 
Professores, direção e coordenação pedagógica precisam desenvolver uma política de prevenção escolar própria e com regras claras e definidas. 
Segundo a especialista, é importante fornecer informações sobre os riscos que o dependente está correndo, mostrar preocupação, saber ouvir, não acusá-lo (mesmo sabendo que ele mente), mostrar que as pessoas perceberam a mentira, não ameaçar, fazê-lo cumprir os castigos atribuídos, procurar a melhor hora para conversar, jamais discutir quando o viciado estiver sob efeito das drogas, identificar outras áreas e problema e encaminhar para profissionais ou serviços especializados. 
 
Por onde começar?
 
A prevenção começa dentro do ambiente familiar. Em casa, é preciso evitar que a criança tenha contato com álcool em suas variadas formas, com cigarros ou remédios. 
Com as crianças menores, é preciso conversar sobre tudo, para que elas se sintam seguras e confiem nos pais e familiares. 
Aos adolescentes, é preciso mostrar as conseqüências negativas e positivas das drogas. É importante esclarecer que os efeitos imediatos e agradáveis das drogas estão relacionados à dependência, que traz conseqüências extremamente negativas para todos.
Conforme explica a diretora geral do Colégio Móbile (SP) e Doutora em Psicologia, Maria Helena Bresser em seu artigo “Contra as drogas: educação, prevenção, projetos de vida”, uma forma eficaz de prevenção é oferecer, desde muito cedo, alternativas de prazer e felicidade às crianças e aos jovens, pois o consumo de drogas está diretamente ligado à busca do prazer, à ilusão de felicidade em um mundo difícil, competitivo, que vende beleza, riqueza e felicidade sem limites em pílulas na TV, no cinema, nos outdoors, nas revistas, na web.
É preciso também educar os jovens para a resistência social, a exemplo do que faz o PROERD. Dizer não ao grupo de amigos que o força a fumar não é fraqueza. Fraqueza seria sucumbir aos desejos e pressões dos outros.
Em sala de aula, o tema pode ser abordado desde cedo, mas principalmente entre os estudantes de 11 e 13 anos de idade.
A escola pode reivindicar ainda a realização do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência –PROERD desenvolvido pela Polícia Militar de Santa Catarina com os alunos do 5º Ano e do 7º Ano. 
 
 
Sugestões de temas e ações de prevenção:
 
Reforçar os valores e fatores de proteção;
Proporcionar questionamentos sobre atitudes de risco;
Desenvolver e ou aprimorar competências para mudança de comportamentos (habilidades sociais, de comunicação, lidar com pressão de grupo, negociar melhores condições ambientais);
Discussão sobre os conhecimentos sobre as drogas;
Focar regras e políticas da escola;
Potencializar proteção pessoal e recusar ao que faz mal;
Valorização do sentido de amizade (dar e receber ajuda, respeito, etc);
Discussão sobre as conseqüências do uso das drogas (lícitas e ilícitas);
Estimular a capacidade de resistir às pressões do grupo;
Compreender a relação entre as decisões tomadas agora e as conseqüências futuras;
Desenvolver identidade pessoal positiva;
Valorização dos estudos;
Conhecer as fontes de ajuda para resolução de problemas.
 
 
Atividades diferenciadas 
 
Para atrair mais a atenção do aluno, os professores podem oferecer atividades diferenciadas, como painéis, gincanas de grafitismo, feiras de ciências, jornalzinhos, rádio, análise de mídia, grêmio estudantil, criação de festivais e outras, que tornem o tema interessante para os estudantes.
A instituição de ensino pode buscar a promoção de experiências saudáveis e de qualidade de vida, como a arte, o esporte, o lazer diversificado, a ação social (por exemplo, de voluntariado), a vivência ambiental, a formação de grupos equilibrados de amigos. 
 
Internatos são alternativas para tratamento
 
A Comunidade Terapêutica Essência e Vida foi fundada em setembro de 1994, em Araquari, com objetivo de dar assistência e tratamento nos âmbitos emocional, físico e social àqueles indivíduos que estão sob a dependência de agentes químicos.
“A abordagem básica na Comunidade Terapêutica é o tratamento do indivíduo como um todo, levando em consideração suas potencialidades e a força presente na coletividade, pois ao vivenciar situações semelhantes de abuso de substâncias, a ajuda mútua torna-se fator relevante no processo terapêutico”, explica Roseli.
As atividades rotineiras oferecem aos internos a oportunidade de aprendizagem sobre seu próprio eu, seu relacionamento com os outros e sobre a retomada de comportamentos, atitudes e valores de uma vida saudável. “Buscamos recuperar hábitos comportamentais saudáveis, habilidades pessoais, emocionais e sociais que são prejudicadas ao longo do período em que a pessoa está dependente das drogas”, completa.
O centro atende pessoas de 15 a 60 anos, alcoólatras e dependentes de múltiplas substâncias (maconha, cocaína, crack etc). Em média são atendidos 22 a 25 casos por mês. “Geralmente são os familiares que iniciam o processo de internação. Mas mesmo assim, o dependente químico deve ‘querer’, estar lúcido, coerente e orientado”, esclarece a coordenadora.
O tratamento é voluntário e o paciente pode se desligar a qualquer momento, porém, o processo completo tem duração de seis meses em regime de residência e mais seis meses em regime de pós-residência. Período voltado para a retomada dos estudos, busca por emprego e fortalecimento de vínculos familiares.
Para ingressar, o paciente precisa passar por uma avaliação psicossocial e psiquiátrica, fazer os exames laboratoriais e estar acompanhado de um membro da família ou responsável.
O tratamento pode ser custeado pela própria família, através de vagas sociais ou subsidiadas pelos órgãos públicos.
Os interessados devem procurar a secretaria da instituição que fica localizada na Avenida Getúlio Vargas, 500 sl80, em Joinville, onde receberão as orientações para a internação. Atualmente, a comunidade possui oito funcionários em regime de CLT, dois profissionais de saúde contratados e 15 voluntários diretamente envolvidos nas atividades terapêuticas e administrativas. 
“Os voluntários são sempre bem vindos e primeiramente, sugerimos conhecer in locuo as atividades. Há várias formas de contribuir com a instituição, basta telefonar para 3028 3357”, ressalta Roseli. 
 
Referências
BRAUN, Ivan Mario. Drogas – perguntas e respostas. MH Editores, 2007.
BRESSER, Maria Helena. Contra as drogas: educação, prevenção, projetos de vida. Março,2011.
IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde Escolar – 2009
Página Eletrônica da Associação Parceria Contra Drogas - www.contradrogas.org.br
Blog da Unidade de Pesquisas em álcool e drogas – UNIAD - www.uniad.org.br
 

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