Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Reportagens

Aiiii que bonitinho... dá vontade de morder... (JE269)

Desde que começou a mamar, a criança usa a boca. Nos primeiros dois anos de vida, leva tudo à boca para experimentar. Cada criança tem seu modo de reagir diante do que sente e do que acontece ao seu redor. Quando contrariadas ou nas disputas por brinquedos, algumas choram, esperando que um adulto interceda, outras reagem instintivamente, batendo ou mordendo. A mordida é o primeiro ato instintivo do ser humano. Nos pequenos de até dois anos de idade, que ainda não desenvolveram completamente a linguagem, a mordida pode ser tanto uma reação de defesa, quando de afeto. 

“A boca é o princípio de tudo. É pela boca que se recebe e rejeita o alimento, desde a amamentação.  As primeiras experiências da criança são pela boca.  Morder, seja como defesa ou demonstração de carinho, é normal, faz parte do desenvolvimento da criança, mas é uma fase que deve passar por volta dos dois anos de idade", explica a neuropsicóloga PatríciaVolpato. 

"Antes de falar, muitas crianças usam os dentes para se comunicar. Nos Infantis 1 e 2, a fase das mordidas entre as crianças sempre causa muita confusão. Os pais da criança que mordeu se sentem constrangidos e culpados. A família da criança que foi mordida se sente agredida e questiona com relação aos cuidados que o filho está recebendo no ambiente escolar. Muitos professores convivem constantemente com o choro de dor de uma criança e a reclamação de um pai indignado. Apesar de comum, é um assunto delicado para pais e educadores, um desafio na Educação Infantil. Educadores e pais, precisamos lidar juntos com a situação", reitera a professora de Educação Infantil do Colégio  dos Santos Anjos, Elisabete de Oliveira Carvalho.

 

Rotina e segurança

 

Sempre que mudar de rotina, inclusive quando vai à escola, a criança precisará de um período de adaptação, para então conseguir se adequar às novas regras de convivência. Na escola, ao mesmo tempo em que terá de aprender a dividir tudo, desde o espaço e a brincadeira ao brinquedo e a atenção da professora e dos colegas, a criança precisará construir o próprio universo e espaço. 

"Uma criança mais impulsiva, que já está insegura pela mudança de rotina e de ambiente, vai responder rapidamente com a mordida", explica Patrícia. 

A neuropsicóloga alerta ainda para o fato de que aos pais e professores cabe perceber qual situação desencadeia esta reação na criança para evitar que ela ocorra. 

Escola e família devem administrar juntas

 

Entretanto, como já diziam nossas avós, "a criança cega a gente". E, o mais importante é, quando ocorrer, o adulto que estiver na supervisão, deve ser firme, repreender imediatamente e demonstrar que a mordida machuca e dói muito na outra pessoa e que este não é um comportamento adequado. Além disso, é preciso desestimular a criança não cedendo ao que ela quer no primeiro momento.   

Pais e professores devem entender que morder faz parte do processo de desenvolvimento, uma forma de proteção. Mas é preciso evitar. E ambos devem ser firmes com a criança na hora em que ela morder. 

E, preferencialmente, estar em sintonia, usando inclusive a mesma abordagem e linguagem, seja em casa, seja na escola.   "Seja firme, fale de forma clara e com poucas palavras que a criança vai entender. É preciso falar, sim.", enfatiza a Patrícia. 

A profissional que atua exatamente com crianças reforça que é importante que se fale na hora, porque 30 minutos depois, a criança dessa idade não vai mais conseguir associar a repreensão com a mordida.

"A escola deve fazer uma aliança entre o professor e a família. É preciso conversar com os pais. Saber como eles falam com a criança em casa, quando ela morde. E, é importante que os pais estejam sempre perguntando como esta o comportamento do filho, para não serem pegos de surpresa. Porque os pais da criança que morde, sofrem muito também. Eles se sentem culpados", esclarece Patrícia.

Imitação

Por outro lado, os pais devem estar atentos também aos familiares, pois alguns costumam usar a mordida como forma de expressar carinho ou como brincadeira. E esta atitude pode contribuir para que a criança morda os colegas. 

"É a mesma coisa que brincar de lutinha, ele vai acabar levando para outros ambientes  aquilo  que vivencia em casa. A criança pequena ainda não sabe diferenciar entre  a 'mordidinha de carinho' e, na escola vai morder seu coleguinha como forma de demonstrar afeto. 

Por esta razão, os pais devem ficar atentos em casa, se há alguém na família que brinca com a 'mordidinha' ou a lutinha.  Às vezes, é uma tia ou uma pessoa que cuida da criança noutro momento e não tem noção das consequências que isso pode trazer", reitera. 

Tanto a professora, quanto a psicóloga reforçam que esta é uma fase normal no desenvolvimento da criança, porém não deve permanecer. É normal, mas não é aceito. Então, tão logo desenvolva melhor a linguagem, a criança desenvolver a linguagem e começar a falar, deverá resolver as situações conversando.

O que fazer

"Um fato muito importante é saber qual o disparador dessa mordida, qual é o gatilho. Se for a disputa pelo brinquedo, estar perto, chamar a atenção, observar para que a situação não aconteça. Mas, tão logo a mordida aconteça, conversar, repreender e direcionar a criança para outra atividade, para outra tarefa, outra brincadeira tirar daquela situação", explicam a psicóloga e a professora.   

A adaptação escolar é o período em que as mordidas mais aparecem. Nessa época, a intervenção das professoras é maior. "Pedimos à criança que mordeu que ajude a massagear a outra, a pôr gelo no ferimento. O colega mordido vai se sentindo melhor até parar de chorar. Compreender essas questões pode ajudar professores e pais. Mas, ainda assim, o desafio permanece", explica a professora Elisabete.

Outra dica para aliviar as tensões das mordidas, após mediar à situação é mudar o foco dando ênfase a atividades, jogos e brincadeiras que envolvam a todos. O brincar é sempre um momento de descobertas e conquistas.  É brincando que as crianças trocam experiências, compartilham sensações e emoções, brincar auxilia na construção de uma identidade autônoma, corporativa e criativa.

 

 

@  Não brigue com a criança, mas seja firme.

@ Explique que ninguém gosta de sentir dor e peça a ajuda da criança para curar o machucado do colega.

@ Descubra o que motivou o comportamento e mostre outras formas de expressão.

@  Mudar o foco e envolver a crianças nas diversas atividades. 

 

 Evitar rótulos

"Os pais, ou a professora, da criança que foi mordida, primeiramente, não devem ver a criança como uma coitadinha. Porque esta também é uma experiência importante para ela aprender a se defender. Segundo, devem preparar a criança perguntando: como você fará para que um colega não faça isso com você?  E enfatizar que juntos "a gente vai resolver'. 

“Para os pequenos, o ideal é orientar a pedir ajuda à professora e juntos encontrar uma solução”, orienta a psicóloga. 

Patrícia sugere ainda usar "a técnica de reforço positivo. Na escola, a professora pode providenciar um cartaz com carinha triste ou alegre, e se não houver comportamento inadequado, todos ganham a carinha feliz. A mordida deve ser somente uma das questões, devem ser incluídos outros comportamentos esperados das crianças. Atitudes simples como tratar bem o amigo, respeitar o amigo e aguardar sua vez para ir no escorregador, pedir o brinquedo, lavar as mãos, etc. Técnicas de interação ajudam, mas às vezes, a professora tem que trabalhar a crianças individualmente.  E caberá à professora, dentro da realidade que observa em sala, estabelecer como a atividade será encaminhada", enfatiza. 

 

Alerta aos pais

 

A neuropsicológa finaliza dizendo que se a atitude de morder persistir após a criança desenvolver a linguagem, quando já deveria conseguir se expressar de forma clara, será preciso procurar um profissional de psicologia para tratá-la. E enfatisa ainda que é preciso cuidar da criança que morde e da que é mordida, mas cuidar para nunca criar um rótulo em nenhuma delas. 

"É preciso ter calma. Com o tempo, conforme a criança vai aprendendo a se comunicar melhor através da linguagem, começa a trocar as mordidas pelas palavras, conseguindo aos poucos, organizar e expressar seus sentimentos e insatisfações de outra forma. Administrar bem as mordidas favorece o desenvolvimento infantil e a interação entre os colegas, ajuda as crianças a perceberem outras formas de expressão e impede rótulos e estigmas infundados", completa a professora Elisabete.

O que dizem os estudiosos

O psicólogo francês Henri Wallon escreveu que é assim a criança constrói seu "eu corporal". A descoberta do próprio corpo seria um dos motivos para a criança morder.

Desde o aparecimento da dentição até por volta dos 2 anos, eles mordem brinquedos, sapatos e até os próprios pais, professores e amigos para descobrir sensações e movimentos. É nessa fase, em que a criança testa os limites do próprio corpo, descobre onde o dela acaba e começa o da outra pessoa. E os dentes que estão nascendo estão em evidência. 

Sigmund Freud também ajudou a entender as dentadas. O fundador da psicanálise definiu como fase oral o período em que a criança sente necessidade de levar à boca tudo o que estiver ao seu alcance, pois o prazer vital está ligado à nutrição. Ela experimenta o mundo com o que conhece melhor: a boca. 

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