Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Reportagens

A Hepatite é altamente contagiante (JE270)

No Brasil, milhões de pessoas não sabem que são portadoras do vírus que ataca o fígado. Praticamente 100% dos adultos jovens já se contaminaram com hepatite viral.  
 
 
Desde maio, o Ministério da Saúde (MS) ampliou a vacinação contra Hepatite B para o grupo etário de 30 a 49 anos em todo o território brasileiro. Até então, eram imunizadas gratuitamente pessoas de zero a 29 anos. A vacina está disponível nas salas de vacina da rede pública de saúde distribuídas em todo o estado de Santa Catarina. 
 

A hepatite é uma doença altamente contagiante e silenciosa, pois as hepatites virais nem sempre apresentam sintomas. 
 O contágio se dá por secreções (saliva, sangue, esperma, secreção vaginal e nasal). Ou seja, não há necessidade de contato direto para o contágio. 

“Não é preciso nem beijar, as minúsculas gotículas que saem da boca enquanto falamos estão carregadas de vírus. Mas nem sempre o vírus entra e leva à doença. Às vezes, mesmo sem sintoma algum, passa e já deixa a imunidade”, esclarece a médica hepatologista e gastroenterologista Cleusa Regina de Moraes.   
 
 
Os fornos existentes em alguns salões de beleza, não matam o vírus da hepatite. Para eliminá-lo de uma agulha ou alicate de cutícula, por exemplo, é preciso uma autoclave (com temperatura superior a 300 graus) ou esterilizar os instrumentos com degermantes específicos como o  glutaraldeído ou substâncias afins. Por esta razão, o melhor é ter o próprio alicate de cutícula e demais instrumentos cortantes. 
“A prevenção é o pulo do gato quando se fala em hepatite. Embora hoje já tenhamos terapêutica para tratar bem o paciente crônico, não há cura e a doença é insidiosa, pode levar de 15 a 20 anos para se manifestar já na fase crônica evoluindo para a cirrose ou câncer de fígado”, alerta a médica.
Vale ressaltar que a maioria dos pacientes com hepatite crônica não sabe que são portadores. Às vezes, sente um pouco de fraqueza, mas a grande maioria não sabe pois não tem qualquer sintoma. 
Classificação

Classificadas em seis tipos: A, B,C, D, E, F e G as hepatites virais A, B e C são as que geram maior preocupação na região Sul do Brasil. 
É preciso ressaltar, entretanto, que vários agentes infecciosos podem levar à hepatite, que é uma inflamação no fígado. O álcool, as drogas e alguns medicamentos são outros agentes importantes.
A mais frequente das hepatites virais é a do tipo A, que acomete bebês e pessoas que têm contato com fezes contaminadas ou viva em condições precárias de higiene. Apesar de altamente contagiante, raramente causa complicação, mas pode levar à falência hepática. 
Já as dos tipos B e C,  em virtude da frequência e consequências que podem causar no ser humano são muito preocupantes. Embora entre 90 a 95% dos contaminados pelo vírus do tipo B, tenham cura espontânea, de 5 a 10% destes pacientes podem se tornar portadores assintomáticos. 
Do contágio pelo vírus do tipo C, apenas 20% se curam espontaneamente. Ou seja, 80%  poderá evoluir para a hepatite crônica, chegando à cirrose ou câncer de fígado, as fases terminais da doença hepática. Não há tratamento para a forma aguda da doença.

Adolescentes estão mais expostos

Há cerca de 20 anos, todas as crianças nascidas em Joinville são vacinadas contra a Hepatite B. Depois, a família leva aos postos e dá a segunda e a terceira doses, que fazem parte do calendário de vacinação das crianças.  
“O problema é que se pensava que vacinando os bebês, a imunidade seria permanente, mas agora já se sabe que isso não acontece. 
Os adolescentes por volta dos 13 anos ficam descobertos. Então, os pais deveriam se alertar para isso e fazer um exame sorológico ( ANTI-HBs) para ver se o filho está imune ou não.  
Aliás, todos, a partir desta idade, devem fazer o exame para verificar se continua imunizado e, mesmo que estiver, tomar pelo menos uma dose da vacina, que é gratuita nos postos de saúde”, alerta a médica. 
“No   Brasil, está havendo um descuido com os adolescentes. Esta é a fase com maior propensão ao contágio por causa do início da atividade sexual e a proximidade com as drogas e o álcool. Quando falo de drogas não é só a seringa compartilhada, mas o canudinho de aspiração de cocaína também transmite. 
Uma pessoa que esteja com hepatite aguda tem carga viral alta e não precisa nem beijar, os fômites (gotículas de saliva) já contaminam. Essas gotículas contêm vírus”, ressalta Dra. Cleusa. 
 “Mas há outros agentes causadores de hepatite. A ingesta de álcool é um grande problema e os adolescentes estão bebendo demais”, adverte.

Contágio por álcool

A ingestão de mais do que 200 gramas de álcool por semana também pode levar à hepatite. Alguns remédios, como antibióticos – eritromicina usada para tratar a pneumonia e doenças da pele.   Anti-micóticos e outras drogas também podem levar à hepatite.
“Mas o álcool é muito importante porque pode levar à cirrose e ao câncer de fígado. Até mesmo o beber socialmente é discutível. Porque a ingestão acima de 200 gramas de álcool por semana ou (seis cervejas, que tem  4% de álcool, já pode lesar o fígado”, lembra a hepatologista. 
Para calcular a quantidade de álcool em cada bebida, basta dividir o percentual de álcool pela dose da mesma. Por exemplo, numa garrafa de vinho de mesa de 750 ml os 13,5% de álcool, equivalem a 101,25 gramas de álcool.
As principais formas de contágio das hepatites virais são pelo ar, pelo compartilhamento de agulhas, seringas, canudinhos para aspirar cocaína, escovas de dente, aparelhos de barbear, instrumentos de dentistas, médicos e manicures,  sexo inseguro e contatos diretos com sangue contaminado. 
No entanto, as pessoas que receberam transfusão de sangue antes de 1992, quem fez cirurgia de grande porte, usou drogas no passado ou tomou injeções endovenosas, como o Glucoenergam, uma vitamina bastante usada por esportistas e atletas, deve fazer um exame sorológico. 
“Temos registro de times inteiros de futebol que foram contaminados pela hepatite B.  Naquela época, as seringas e agulhas eram somente fervidas e os times injetavam essas vitaminas para melhorar o desempenho de seus atletas”, registra a  hepatologista.
Outros tipos

A hepatite D (Delta), embora seja considerada grave, só tem registro na região amazônica. Do mesmo modo, a hepatite E é importante, mas quando acomete gestantes, mas também é rara. 
Não existe exame sorológico para este tipo em Joinville, então as suspeitas são registradas apenas para fins de pesquisa. Já as Hepatites F e G “são discutíveis”, do ponto de vista da médico, finaliza Dr. Cleuza.

Em Santa Catarina

Os vírus mais comuns em Santa Catarina são do tipo A, B e C. E, quando são sintomáticas,  provocam cansaço, dor abdominal, fezes claras, peles e olhos avermelhados, febre, tontura, enjôo e/ou vômitos, além de urina escura. 
Desde maio, a vacina contra a hepatite B está disponível nos postos de saúde para todas as pessoas de zero a 49 anos e para outros grupos prioritários.  Também podem tomar a vacina via SUS, familiares de pacientes que já desenvolveram a doença, usuários de drogas, profissionais da saúde,  doadores e receptores de sangue e transplantados, entre outros. 
Fábio Gaundenzi, diretor da Vigilância Epidemiológica (DIVE), explica que a hepatite B é transmitida pelo sangue e nas relações sexuais sem o uso de preservativo. Segundo ele, também é possível pegar a doença pelo compartilhamento de agulhas e seringas, lâminas de barbear ou de depilação, materiais de manicure, escovas de dentes ou por meio de materiais para a confecção de tatuagens e colocação de piercings. 
Uma das estratégias para controlar a epidemia de hepatite B, que tem como principal fator de risco a transmissão sexual (50%), é a intensificação da vacina para todas as pessoas com idade até 49 anos.  
“O objetivo é alcançarmos uma cobertura mínima de 95% dessa população alvo”, destaca Gaudenzi.
A imunização contra hepatite B é realizada em três doses, com intervalo de um mês entre a primeira e a segunda dose e de seis meses entre a primeira e a terceira dose (0, 1 e 6 meses). A vacina, após administração do esquema completo, induz imunidade em 90% a 95% dos casos.
Registros epidemiológicos referentes ao período entre 1994 e 2012 revelam que foram notificados 9.544 casos da doença em Santa Catarina.  Do total, 67% são em homens e 33% nas mulheres. A faixa etária mais atingida é a de 30 a 49 anos, o que corresponde a 58% dos casos notificados.  
A categoria de exposição predominante é a de usuário de drogas injetáveis e inaláveis, que representa 23% dos casos notificados.
A hepatite C é transmitida principalmente pelo sangue.  As outras formas de transmissão são semelhantes às da hepatite B. Porém, a sexual é menos freqüente. Mas pessoas que receberam transfusão de sangue e/ou hemoderivados antes de 1993 podem ter contraído a doença.
“Na ausência de uma vacina contra a hepatite C, o melhor é optar pela prevenção, evitando o compartilhamento de escovas de dente, lâminas, tesouras ou objetos de uso pessoal, bem como seringas e outros instrumentos usados na preparação e consumo de drogas”, orienta Gaudenzi.  


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