Jornal da Educação - ISSN 2237-2164

Reportagens

Modelos e tecidos seguem tendências da moda


     O uso ou não do uniforme escolar sempre foi tema de discussões nas escolas.

     Criado para igualar ricos e pobres nas salas de aula, a vestimenta igual para todos, foi também considerada um dos símbolos mais importante para algumas instituições.
Para os pais, o uniforme é uma forma de gastar menos com a roupa dos filhos. A durabilidade, o preço e a praticidade são outros aspectos considerados importantes. 
Atualmente, a questão da segurança no trajeto casa-escola-casa também ganha importância.

     Nos grandes centros, usuários identificados com  escolas caras, correm risco de seqüestro. Em contrapartida, em caso de acidente, o estudante é imediatamente identificado, favorecendo o socorro e contato com familiares.

     Em Santa Catarina, a principal discussão em torno do uniforme é o uso da doação com fins eleitorais e, na rede estadual e alguns municípios, a perda da identidade com a escola, pois o uniforme é igual para todos os estudantes da rede.


      O uniforme escolar esteve sempre ligado ao modo de vida das pessoas, seguindo as tendências da moda, da política, da sociedade. Ao mesmo tempo em que desenvolve o sentimento de pertencimento a um grupo, importante ao desenvolvimento psico-social da criança, o uniforme aprofunda a ligação com o estabelecimento de ensino e o espírito de equipe". Ao longo de sua história, o modelo, tecido, as peças e cores do uniforme escolar foram marcados pelas tendências da época.

     Desde sua criação, as peças do uniforme, oscilaram entre blusas e saias de tecidos para as meninas e calças sociais para os rapazes. Sapatos, meias e adereços como broches e gravatas também fizeram parte de uniformes. Atualmente, calças de tactel e agasalhos e camisetas de malhas são as principais peças dos uniformes e os preferidos das crianças e adolescentes. A maioria das escolas também não diferencia mais o uniforme do dia-a-dia e para a prática esportiva, ou as aulas de Educação Física.

     No Brasil de 2007, o uniforme escolar não usufrui de tão grande prestígio entre os estudantes, como no século passado, quando ostentar o uniforme de determinadas escolas era o sonho de todo e qualquer jovens e de seus familiares.

     Naquele período, especialmente entre os anos 40 e 70, tudo o que se queria era ser igual ao filho do doutor, ou do militar, que pertencia, obviamente à classe mais abastada e podia pagar, ou barganhar, as caras mensalidades das escolas particulares, geralmente religiosas e em regime de internato. 

     Hoje, seja por segurança, para evitar ser sequestrado nos grandes centros; ou simplesmente para ser diferente, mesmo sendo igual, os adolescentes e mesmo as crianças, se pudessem, trocariam os uniformes escolares por calças, camisetas e jaquetas de marca reconhecida como as melhores. Este é, seguramente, o sonho de consumo de muitos adolescentes. E não são poucos, os que escondem camisetas nas mochilas para vestir longe da vista dos pais, mas antes de chegar à sala de aula.

O surgimento do uniforme

     Com o aparecimento das escolas voltadas para a educação formal, cada instituição sentiu a necessidade de se diferenciar das demais. O uniforme foi a primeira opção, já que a própria aprendizagem se dá, em larga medida, pelo sentido da visão. Além desse aspecto, a partir da matrícula do estudante, a escola passava a ser a responsável por sua segurança, especialmente no caso dos internatos.

     Ao mesmo tempo, o aluno, deveria honrar as cores, o nome, a tradição e o símbolo da escola, mesmo estando fora do ambiente escolar, era um compromisso mútuo, que perdura até os dias atuais. Segurança de um lado e honra e respeito de outro.

     Antes de 1890, o uniforme escolar não era padronizado, porém, como a escola era um lugar para os filhos da elite, as vestimentas dos alunos eram sempre parecidos, já que todos tinham condições de adquirir as roupas da moda.  Entre 1890 e 1910 houve a padronização e o uniforme ganhou um singelo destaque, embora o estilo militar ainda dominasse a estética das roupas da época.

     Entre 1920 e 1929, as instituições educacionais do Brasil deixaram de exigir uniforme. Na era Getúlio Vargas, voltou a ser oficial. A universalização do ensino público, possibilitou que ricos e pobres pudessem freqüentar a mesma escola. Desde modo, o uniforme voltou com o objetivo de minimizar as diferenças tão gritantes entre as duas classes sociais. 

     Na década de 50, as meninas usavam vários anos seguidos a mesma saia, que era chamada de "roupa do crescimento". As mães deixavam as barras compridas no avesso e soltavam conforme a garota crescia. Hoje, as meninas não se imaginam usando apenas um modelo ou mesmo saia, por anos seguidos. Especialmente as que estudam na rede particular, aliás, saiam são peças raras na composição do uniforme escolar, atualmente.

     Por volta de 1960 a 1970, os uniformes eram utilizados para impor disciplina e roupas aos alunos, com apoio do governo. Segundo o autor do livro História do Uniforme no Brasil, Furio Lonza, "cada época influenciou os uniformes de uma determinada maneira, seja ela liberal, arbitrária ou conservadora".

     Até a década de 80, o uniforme sempre caminhou conforme a moda, porém, a partir de 1985 o modelo que se sobressaiu foi o esportivo (bermuda e camiseta). Com o passar dos anos, o uniforme é incrementado com novos tecidos, cores e cortes, tornando-se cada vez mais confortável. Sua utilização é defendida pelas famílias como sendo um modo econômico de vestir os estudantes para a tarefa diária de ir à escola.

Praticidade e durabilidade

     No final da década de 90, calças jeans, agasalhos de tactel e camisetas de modelos diversificados e os borbados começaram a compor o novo visual dos uniformes, especialmente os das escolas privadas. Mesmo assim, já não há uniforme diferenciado para a prática de atividades esportivas. A uniformidade já não está na igualdade de todos, mas na diversidade de opções.

     As escolas flexionam cada vez mais os modelos. Os alunos do3º ano do Ensino Médio, geralmente, fazem camisetas, aceitas como uniforme, tanto pelas escolas públicas, quanto privadas. Além disso, os estudantes do turno noturno são dispensados de usar uniforme na maioria das escolas. 

     As autoridades educacionais defendem o uniforme como modo de garantir igualdade de tratamento, pelo menos visual, a todos os alunos, especialmente em relação ao professor e demais profissionais da escola. A escola o defende como identificação para a segurança, inclusive no caso de acidentes no trajeto de ida e volta da escola.

     Nos últimos anos, com a distribuição gratuita de uniformes a todo os estudantes, a identificação com a escola e a segurança, ficou em segundo plano. A utilização política da doação com fins eleitorais e o uso indevido de verbas da educação -que registre-se já são insuficientes para garantir o mínimo de qualidade do ensino- são críticas constantes.

     Com a justificativa de que o Brasil é um país de extrema desigualdade social  e que há crianças cujos pais não teriam dinheiro para comprar roupas para as crianças irem à escola. Prefeitos e até governos de estado doam uniforme a todos os estudantes incorrendo em outro desvio na administração do dinheiro público. Peças do vestuário, mesmo que uniformes escolares, não têm ligação direta com a atividade fim da educação, portanto, devem ser custeadas, por verbas de assistência social.

Cobrança pela escola

     Entre os inúmeros questionamentos e controvérsia em relação ao uso do uniforme está a sua obrigatoriedade. No passado, cada época política influenciou o seu uso e importância. Durante o período militar, as escolas encontraram situação propícia e exigiam o uso em clima de arbitrariedade. Havia, inclusive muitos abusos, como os de instituições que exigiam que as meninas usassem blusa de manga comprida até no verão, e caso fosse flagrada dobrando-as na volta para casa, levaria uma advertência.

     A principal finalidade da vestimenta, obviamente, é a uniformidade dentro da sala de aula, evitando verdadeiros desfiles de moda, marcas e estilos, evitando, inclusive disputas e desentendimentos entre as diversas "tribos" que convivem cordialmente no ambiente escolar.

     As cores e modelos transmitem a identidade visual da escola, mostrando sua filosofia e linha pedagógica, que seguramente é diferente em cada uma das milhares de escolas de um  país, independente de ser da rede pública ou privada e no nível de ensino em que atua. 

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